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Com a série Aos olhos do Pai, o fotógrafo Ricardo Borba Labastier foi
escolhido para o importante festival PhotoEspaña

Ricardo Daehn
Da equipe do Correio
Fred Jordão/Imago

Seguindo a intuição – ou o “chamado”, como prefere descrever o fotógrafo Ricardo Borba Labastier –, há sete anos ele tem apostado no desenvolvimento da série de imagens intitulada Aos olhos do Pai. Entre viagens para Pernambuco, Bahia e Paraíba, o foco é o mesmo: à frente da lente 50mm (que preserva características parecidas com as do olho humano), desponta o interesse pelo “Nordeste católico, fervoroso e patriarcal”. A recompensa pelo trabalho que expõe “uma forma antagônica de ser católico”,
curiosamente, parece ter recebido providência divina: num universo de 800 inscritos para o segmento Descubrimientos, do respeitado Festival Internacional de Fotografía y Artes Visuales de Madrid (o PhotoEspaña), Ricardo Labastier (ao lado de Hirosuke Kitamura) representará o Brasil.

Vale a lembrança de que o PhotoEspaña é um dos três eventos mais importantes do segmento, junto com o holandês Noorderlicht e o texano FotoFest, de Houston. Agora em décima edição, o PhotoEspaña já exibiu 588 exposições (entre elas, dos brasileiros Mário Cravo Neto e Rosângela Rennó) e soma, anualmente, 500 mil visitantes em museus e galerias de arte. Disperso por dezenas de estabelecimentos, o festival de artistas visuais e fotógrafos, com direito ainda a instalações e vídeos, transcorrerá de 30 de maio a 22 de julho.

Finalista, com outros 59 artistas, na premiação que assegura presença automática no evento em 2008, Labastier diz que não cria muita expectativa com possível vitória. “Acho legal o reconhecimento a um trabalho muito abrasileirado, ligado à nossa cultura. Tive que abrir mão de um monte de coisas para trabalhar com a minha verdade. Interessante foi ver que valeu a pena, é gratificante ser reconhecido sem ser por uma produção imediata, sem
ter que apelar para nada. Se vai vender ou atingir o mercado, será uma conseqüência. Arte é o fazer por fazer”, define o olindense.

Com a produção de Aos olhos do Pai intensificada em 2005, Labastier viu o trabalho – que retrata religião, sem esquecer de aspectos profanos e opressores – ganhar repercussão na seleção para exposições montadas no DF
(no Teatro Nacional e em Taguatinga), em São Paulo (capital) e em Goiás (Goiânia e Cidade de Goiás). Um recorte da obra, em 15 imagens (80x80cm),
passará em junho pelo crivo de 20 críticos do ramo, entre eles o diretor suíço do Musée de l’Elysée, William Ewing, e Rebecca McClellard, editora de fotografia da inglesa Sunday Times Magazine, além de colecionadores de arte.


Câmara vermelha Morador de Brasília há sete anos e dedicado à fotografia há 12, o fotógrafo free lancer sempre desconfiou que “a arte estava no meio do caminho”. Isso desde a época de convivência com um tio, outro profissional das imagens. “Cresci num laboratório vermelho, com ele lá revelando e a luz vermelha servindo de proteção”, recorda. Admirador incondicional de música, Labastier associa ritmo à profissão. “Fotografia é como um instrumento de expressão. Gosto muito da sonoridade brasileira e acho que minha fotografia é muito musical. Não no tema, que normalmente implica várias referências. Mas, nas abordagens, é como se eu buscasse uma textura musical entre o sonho e a realidade. Você sonha o que você vive. Desde as composições da luz, busco algo pré-onírico. É nesse espaço que acontece a minha fotografia”, avalia o artista.

Autodidata, Labastier conta particularmente com “o senso crítico e o rigor do domínio da técnica”. Ainda assim, ele desacredita na existência de uma fotografia perfeita. “O que existe é uma obra consistente, verdadeira. Numa fragmentação do conjunto, podem até existir boas fotos, mas acho que prevalece sempre a mensagem completa de um ensaio”, avalia.

Aos 34 anos, Labastier recorre a elementos da infância para pontilhar as coordenadas de interpretação para Aos olhos do Pai. “Meu trabalho sempre foi muito interiorizado e acho que ainda respiramos bastante do que foi implantado com as tradições portuguesas que vieram no início da nossa formação. O Brasil é católico e isso chega com uma força absurda na minha família, que é nordestina. São cargas que se refletem no cotidiano contemporâneo”, argumenta o fotógrafo.

Na série que competirá à premiação na seção Descubrimientos, as imagens literalmente se aproximam de objetos inseridos numa postura barroca, como
destaca. Entre registros de devotos “meio abraçados pelos eclesiásticos”, que quase habitam igrejas e mosteiros, a lente captou ainda um ex-voto (objeto dotado de sentido religioso) da Igreja de Nossa Senhora do Carmo e restos de peças sacras no Recife, além de sugestivas imagens de abandono, como a de uma representação de Cristo largada numa calçada de João Pessoa.

 

 


 
   


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